sábado, 15 de agosto de 2009

O 6 primeiros capítulos de 'Os Corais'!



I
O sol incomodava Miguel visivelmente. Ele não fazia a mínima questão de esconder o quanto se sentia desconfortável com a grande porção de tempo que já havia esperado pelo ônibus que levaria ele e seus amigos ao seu destino de férias, Enseada dos Corais, uma praia conhecida pela beleza de seus corais e muito visitada durante os finais de semana, porém praticamente abandonada durante os dias úteis pela pequena quantidade de condomínios e hotéis à sua frente.
Miguel olhou em seu celular e já passava das 15h daquela sexta-feira. Depois de saber disso, pareceu ainda mais impaciente, e olhando ao redor percebeu que todos as pessoas que ali esperavam pelo embarque preocupavam-se mais em examinar seu grupo de amigos do que na demora que levava para que as portas do ônibus se abrissem. Não foi surpresa para ele que aqueles "interioranos" não fossem acostumados à modernidade de seus amigos e até dele, também não era segredo para qualquer um com olhos e/ou ouvidos que se tratavam de um grupo de gays. Ele mesmo se virou para examiná-los, tentando se sentir como uma pessoa daquele lugar, no meio de todos aqueles que se perguntavam de onde vinham aqueles seis esquisitões.
Bruno estava sentado em uma mala, que não era sua, já que Miguel havia percebido que ele só tinha levado uma mochila com o que ele achava necessário para se passar uma semana inteira fora de casa. Era até meio irônico, pois dentre eles, Bruno parecia ser o mais preocupado com sua aparência e bem-estar, e assim mostrou não ser tanto quanto imaginado. Ele chamava mais atenção pelos seus traços femininos, que, com a ajuda do seu cabelo preso por uma ataca, parecia se acentuar ainda mais.
Lucas andava de um lado para o outro, parecendo despreocupado com a demora. Ouvia o mp3 player de Miguel, repetindo incansavelmente as músicas 'Up' e 'I Hate This Part' de dois grupos femininos totalmente diferentes. Alguns garotos no meio da multidão interiorana pareciam cochichar e rir apontando para ele, Miguel reparou. Suas roupas eram praticamente femininas, assim como seu jeito de andar de um lado para o outro, quase criando uma coreográfia para as músicas que ouvia.
Piccoli estava desatento. Parecia ainda estar muito cansado pela madrugada mal-dormida. Miguel lembrava bem, pois houvera dormido no mesmo quarto que ele, e viu quando ele se levantou bem cedo para começar a arrumar a casa da mãe Lucas, onde eles haviam ficado no dia anterior a viagem. Isso deve ter deixado ele morto de cansaço, Miguel pensou ao lembrar da bagunça que haviam feito.
Pierrot estava bem na porta do ônibus, parecia bem mais ansioso que Miguel para entrar no ônibus. Seu cabelo em corte moícano era o que mais atraia a atenção dos interioranos nele, mas a verdade é que por ele estar praticamente junto a multidão, apenas algumas pessoas próximas a ele o reparavam. E além disso, Miguel pensou ter notado ele conversando com uma senhora que estava ao seu lado, no começo da fila. Deve estar perguntando que horas o ônibus sai.
Dentre todos, Belki era o que mais parecia estar em seu humor habitual. Ele simplesmente estava ali em pé, esperando com uma grande bolsa em suas costas. Eles devem achar que ele não está com a gente, pensou Miguel. A ele faltava algo que chamasse mais a atenção para sua diferença, além de seus óculos escuros, que eram bem enormes.
Depois de avaliar o que a multidão perdia tempo reparando em seus amigos, Miguel se deu conta de que não havia parado para pensar em si mesmo. Para si, ele sempre fora tão normal quanto qualquer um, mas era óbvio que aqueles interioranos não pareciam partilhar de sua opinião. Ele era loiro, de um tom de cabelo muito claro. Claro demais para as pessoas acostumadas ao sol forte e peles brozeadas daquele lugar. Seu cabelo estava preso como o de Bruno, mas ele pensava nisso como algo que ajudava a diminuir o calor que sentia e não exatamente como um atrativo para olhares exclamativos.
Com sua auto-analise completa, Miguel sentiu vontade de se virar para toda a multidão e perguntar por que eles não olhavam para o próprio nariz, mas criar confusão não era algo que seu atual estado de desconforto físico permitiria, ele sabia bem, então deu de ombros e resolveu voltar sua completa atenção para a porta do ônibus que teimava em não abrir.
- Esse ônibus só vai sair amanhã? - Perguntou Bruno, finalmente falando algo que Miguel desejaria ter dito há o que pareciam ser horas atrás.
Belki deu de ombros.
- Né?
Nesse momentos a porta abriu. Pierrot foi o segundo a subir no ônibus, logo depois da senhora que ele parecia ter tido uma pequena conversa há alguns minutos. Depois de alguns empurrões, Miguel conseguiu subir, foi o segundo de seu grupo a conseguir a façanha, seguido por Belki, Bruno e Lucas. Ali Piccoli reafirmou que estava um pouco mais lento que o normal naquele dia, sendo o último do grupo a conseguir entrar. De fato, ele ficou feliz quando conseguiu se sentar, Miguel reparou em seu pequeno sorriso e achou irônico que o próprio Piccoli pensara que não consegueria subir a tempo de arrumar uma vaga sentado.
Quando todas as pessoas na fila entraram, o ônibus pareceu a Miguel estar bem mais vazio do que ele pensava que ficaria. Não demorou nem um minuto para sair do terminal depois que o último passageiro subiu. Ele sentou no segundo banco do lado esquerdo do ônibus com a janela de um lado, e Bruno do outro. Eles não conversaram durante o caminho, ambos pareciam concordar que ficar calados seria um bom descanso físico e mental depois de todo aquele calor, multidão, demora, etc.
Pierrot e Belki estavam no banco a frente e pareciam não se importar com o descanso. Estavam até mesmo brincando com duas garotas que viajavam em pé à frente dos dois. Eles conversavam em espanhol, querendo que as garotas acreditassem que eles eram estrangeiros. Elas riam. Miguel não conseguia identificar se as risadas eram geradas pelo fato delas pensarem que eles as achavam estúpidas o suficiente para cair naquela história, ou se elas riam justamente por acreditarem e nunca terem conhecido estrangeiros antes. Mas para Pierrot e Belki isso não parecia fazer a mínima diferença, a questão é que eles estavam se divertindo.
Lucas e Piccoli não estavam mais à vista de Miguel, já que depois de poucas paradas o ônibus já se enquadrava bem no pensamento de Miguel de como ele sairia do terminal. Super lotado.
Depois de 10 minutos de viagem, já não havia mais um traço de cidade ao redor da estrada em que o ônibus se encontrava. Tudo era verde, exceto a própria estrada e o ônibus. A mata era tão densa que Miguel não via a luz do sol por entre as árvores, mas apenas por cima delas. E alcançar com o olhar o topo de algumas delas era tarefa árdua. Não que isso deixasse o caminho escuro, por incrível que pareça.
- Pierrot, você pediu para o cobrador avisar quando chegasse na entrada de Enseada? - Miguel perguntou no exato instante que lembrou que nenhum deles fazia idéia de onde teriam que descer.
- Perguntei, relaxa. - Pierrot respondeu com a voz muito baixa para que as garotas não percebecem que ele havia falado palavras em português. Miguel se esforçou para ouvir.
Alguns minutos depois, o cobrador fez um sinal para Pierrot, avisando que ele tinha que descer na próxima parada. Em resposta, Pierrot fez um sinal de legal com o polegar direito.
- Piccoli, Lucas! - Chamou Bruno, sendo o mais rápido já que tanto Pierrot quanto Miguel já haviam aberto a boca provavelmente para fazer o mesmo. - A gente vai descer agora.
Pierrot, Belki, Bruno e Miguel se levantaram e viram Piccoli olhando em volta, como que procurando por algo. Dele, eles só conseguiam ver a cabeça devido o número de pessoas que se encontravam em pé, os separando.
- Cadê, Lucas? - Perguntou Piccoli olhando para os outros quatro.
Nenhum deles pareceu se importar em responder a pergunta, apenas olhavam para todos os lugares que conseguiam. O ônibus já estava diminuindo a velocidade, parando, e nada de Lucas. Eles foram passando devagar por entre os passageiros e olhando para os bancos. Nada. Miguel lembrou que de nada adiantava chamá-lo, pois eles estava ouvindo seu mp3 player no maior volume e ninguém havia reparado onde ele havia sentado.
- No caminho pra porta, a gente vê ele. - Disse Miguel. - Vamos.
O ônibus havia parado, e Piccoli já tinha descido, quando Bruno finalmente achou Lucas, dormindo quase no fundo do ônibus, com o mp3 player ainda tocando muito alto e os fones enfiados em seus ouvidos.
- 'Cê tá louco? - Perguntou Bruno, parecendo zangado.
- Desculpa gente, eu acabei dormindo sem querer. - Disse Lucas, que parecia sinceramente triste pelo que aconteceu.
- Tá, mas... - Interrompeu Miguel, fazendo todos olharem para ele nesse momento. - Pra onde que a gente vai daqui?


II

- Eu tenho que ligar pro meu padastro. - Disse Lucas, tirando o celular do bolso. - 'Pera.
Lucas digitou o número do celular do padastro dele, e logo que levou o celular à orelha direita, reparou numa borracharia do outro lado da estrada. Eles já haviam passado por toda parte de floresta densa da estrada, e aquela borracharia representava o início de algo que poderia ser considerado como parte de uma cidade, mesmo que bem pequena. Percorrendo com os olhos um pouco mais adiante, Lucas também notou a existência de uma pequena padaria e uma pequena farmácia, seguidas por um casarão antigo e logo depois uma outra estrada, ligada a que eles estavam, mas entrando para a sua esquerda. A entrada, pensou.
Seu padastro não atendeu até a ligação cair. Lucas imaginou que poderia ter discado o número errado e tentou de novo. Enquanto chamava, ele pensava em diversas coisas. E os chamados do celular, pareciam estar sincronizados a mudança de pensamentos que lhe passavam naquele momento.
Tu... porque ele não atende o maldito celular?
Tu... puta merda, eu tô queimando embaixo desse sol!
Tu... a primeira coisa que eu vou fazer quando chegar lá é tomar um banho gelado.
Tu... putz, eu preciso de um cigarro urgentemente!
- Alô? - Finalmente ele foi atendido, mas não era seu padrasto, e sim sua irmã, Carol.
- Carol, cadê Beto? - Perguntou apressado.
- Ele saiu com mamãe.
- Ué, mas eu tinha combinado com ele de vir pegar as malas com o carro quando a gente chegasse. - Lucas agora colocava raiva em suas palavras.
- Err... eu não sei o que dizer. Quando ele chegar, eu mando te ligar, ok?
- Caralho! - Ele gritou, por fim desligando o celular o colocando de volta em seu bolso.
Seu grito pareceu chamar não somente a atenção de seus amigos, como a dos dois homens fortes que estavam na frente da borracharia. Lucas deu uma olhada neles, que não estavam ali antes, quando ele houvera reparado a existência do lugar. Eles eram bem altos, possivelmente mais que Pierrot e Piccoli, os mais altos do grupo. Estavam completamente sujos de graxa e suas roupas apertadas detalhavam seus corpos extremamente sarados. Geralmente isso atrairia Lucas, mas esses lhes pareciam repugnantes, principalmente com a expressão de ódio que carregavam em seus rostos. Ele não poderia ter tido outra reação:
- Vamos andando até a entrada. - Disse, ainda encarando os dois homens, querendo desviar a visão, mas sem poder.
Ele pegou as duas malas que havia colocado no chão desde que desceu do ônibus e pôs-se a andar, com os outros o seguindo, quase em fila indiana. Lucas, Bruno, Pierrot, Miguel, Belki e Piccoli, um seguindo os passos do outro, fazendo as mesmas expressões de cansaço devido ao peso das malas, exceto Bruno. Naquele momento, todos desejavam ter tido a esperteza de levar pouca bagagem.
- Seu padrasto tá vindo? - Perguntou Bruno, que agora apressava o passo para se posicionar ao lado de Lucas, na frente do grupo.
- Não, não. - Respondeu Lucas olhando para o chão enquanto andava. Os fones do mp3 player pendurados em seu pescoço, ainda tocando num volume tão alto que Bruno conseguia escutar o som, só não podendo distinguir a música. - Ele e minha mãe não estão no condomínio.
- E onde eles estão? - Perguntou Bruno parecendo absmado.
- Ah, não sei, Bruno. - Lucas disse, deixando indiretamente claro que não estava afim de conversa.
Ao chegarem no começo da outra estrada, Lucas parou e se virou para os outros. Por um instante permaneceu calado, mas com a boca entre-aberta, revelando um pequeno traçado de seus dentes. Ele reparou que todos o olhavam com a mesma expressão de dúvida, sem saber o que estava por vir.
- É o seguinte, - começou. - não sei de que horas meu padrasto vai voltar pro condomínio, então vocês decidem se preferem esperar pra ele vir pegar as malas ou se a gente vai carregando tudo até o condomínio.
- Qual a distância daqui pra lá? - Perguntou Pierrot, sendo mais rápido que todos os outros que estavam prestes a perguntar o mesmo.
- Não sei dizer direito, eu sempre passo por aqui de carro. - Disse Lucas, que só fez notar que depois dessa resposta todos ficaram com expressões de mais dúvida ainda, então continuou. - Mas não é tão longe... nem tão perto. E temos que subir uma ladeira.
Quando Lucas acabou de pronunciar a palavra ladeira, todos ficaram boquiabertos.
- Oush, vou nunca. - Pierrot deixou bem claro, enquanto se sentava num paralelepipedo que fazia fronteira com a estrada.
- É no topo da ladeira? - Perguntou Piccoli, voltando toda a atenção para si, que até agora tinha permanecido tão calado e por fora da situação. - Digo... o condomínio?
- É. - Lucas respondeu com forçando a afirmação. - Mas ela não é tão alta, dá pra subir numa boa.
- É muito íngrime? - Perguntou Miguel parecendo desmotivado. - Não vou subir uma ladeira muito íngrime com duas malas.
Quando Lucas abriu a boca pra responder, foi interrompido por Pierrot:
- E vocês ainda cogitam a hipótese de subir a ladeira com as malas? Eu já disse que não vou nunca.
- Vamos fazer uma votação. - Disse Bruno, que ao olhar de Lucas parecia apenas estar querendo confrontar Pierrot.
Desde a noite passada que Bruno vinha discutindo muito com Pierrot. Os dois não estavam namorando, mas estavam tendo um pequeno caso. Caso que Lucas sabia que Bruno estava bem mais envolvido que Pierrot.
- Eu concordo. - Disse Lucas.
- Mas é muito íngrime? - Disse Miguel que parecia ter a voz um pouco mais baixa depois de ter sido deixado de lado da última vez que perguntou.
- Não, amor. - Respondeu Lucas.
- Tá, né? - Disse Pierrot se levantando. - Eu voto em esperar.
- Eu voto em ir. - Prontamente Bruno se pôs no caminho de Pierrot.
- Eu voto em ir também. - Disse Lucas com menos determinação que Bruno, mas certo do que queria.
- Eu voto em esperar. - Disse Miguel que não parecia bem certo do que queria.
Os quatro que já haviam votado viraram os rostos em direção a Piccoli e Belki, que apenas assistiam toda a discussão e pareciam não ter idéia do que dizer. Piccoli pegou seu celular no bolso e apertou um botão, possivelmente para checar a hora.
- São 16h20. Eu acho que ele não vai demorar muito, então eu voto em esperar. - Disse Piccoli, que logo virou a visão para Lucas. - Desculpa, Lucas, mas eu tô muito cansado pra subir com tantas malas.
- Ok, amor. - Disse Lucas, que não tomou o voto de Piccoli como traição, percebendo que esse havia pensado que ele o faria. - Não tem problema... Belki?
- Eu voto em esperar, também. - Belki votou parecendo esgotado.
- Então é isso. Como eu disse, vou nunca. - Apressou-se Pierrot, voltando a sentar no paralelepipedo, parecendo se vangloriar de sua vitória sobre Bruno.
Lucas logo olhou para Bruno que parecia em fúria por dentro. Parecia que ele estava prestes a se jogar em cima de Pierrot para estapeá-lo no rosto, enquanto os dois trocavam olhares de ódio e de gozação. Uma briga era tudo que eles não precisavam naquele momento, então Lucas apressou-se para tomar a atenção de Bruno.
- Bruno, ali tem um mercadinho. - Disse ele, quebrando a troca de olhares entre os dois. - Vamos comprar cigarro comigo? Tô prencisando.
- I could use a cigarette. - Respondeu Bruno com a expressão facial voltando ao abatimento e cansaço da viagem. Tanto ele quanto Miguel tinham esse costume de falar umas frases inteiras ou mesmo umas palavras em inglês no meio de frases em português de vez enquando.
Lucas deixou suas malas no chão perto dos outros quatro, fazendo sinal para eles vigiarem enquanto ele não voltasse. Piccoli aquiesceu.
Os dois foram andando em direção ao pequeno mercado que ficava um pouco mais adentro da nova estrada, antes de ela fazer uma curva, ainda no campo de visão dos outros quatro que ficaram na entrada. Lucas constantemente olhava para trás enquanto andava em linha reta. Ele tinha medo das brincadeiras que os meninos tinham, às vezes em momentos impróprios, de se esconder. Ao chegar mais perto do mercado, Lucas reconheceu logo um dos borracheiros com expressão de ódio. Deve ter passado por nós enquanto discutíamos, pensou. Lucas olhou rapidamente para o rosto de Bruno para ver se ele também tinha alguma reação ao ver o homem. Nada. O borracheiro estava conversando com a única caixa do mercadinho, mas parou e ficou olhando fixamente para os dois amigos que se aproximavam, fazendo com que a moça do caixa se virasse para olhar por que ou quem ele tinha interrompido a conversa. Ao ver o rosto da moça, Lucas reparou primeiramente em suas grandes e fundas olheiras. Ela parecia ter mais de 30 anos, mas era claramente mal cuidada e "derrubada" demais, logo devia ser pelo menos 10 anos mais nova do que aparentava. Ele ficou tentado a perguntar sua idade quando fosse pagar. Não.
- Vamos levar uns refrigerantes? - Perguntou Bruno enquanto entravam, passando pelo lado esquerdo do borracheiro e da caixa. - Tô louco pra tomar um.
- Ok, amor. - Concordou Lucas, olhando de lado para não perder a visão do casal.
Os dois foram para o fundo do mercado, onde viram os refrigerantes. Lucas logo lembrou de sua necessidade por saber se lá havia a sua marca de cigarros favorita disponível.
- Escolhe os refrigerantes que eu vou pedir os cigarros. - Ele disse, se voltando em direção à frente do mercado.
Ele tinha voltado por uma fileira de plateleiras mais a direita de onde se posicionava a caixa para não ter que ficar encarando o casal enquanto andava até lá. Ao chegar um pouco mais perto ouviu uns cochichos. Então diminuiu ainda mais o passo para tentar ouvir sobre o que os dois conversavam.
- E não são só eles. São um bando todo de bichonas. - Disse o borracheiro. Sua voz era muito grossa, e ele parecia mais irritado a cada palavra que soltava. Lucas achou que sua voz não poderia combinar mais perfeitamente com seu rosto. - São seis deles... ou delas, sei lá, com no máximo 20 anos cada. - Na última frase, ele deu um tom de ligeira gozação.
A caixa não disse nada, apenas deu umas leves, porém irritantes risadinhas.
Lucas então deu mais uns passos a frente, se mostrando. Ela engoliu rapidamente suas risadinhas.
- Você tem Malboro Light? - Perguntou, fingindo não ter ouvido nada.
- Sim, custa R$3,40. - A voz dela conseguia ser mais irritante que sua risadinha.
- Eu vou querer duas carteiras.
Enquanto a caixa se levantava para pegar as carteiras de cigarro, Bruno chegou trazendo dois refrigerantes de 2 litros, colocando-os na esteira.
- Até que horas vocês ficam abertos aqui? - Perguntou Bruno.
- Até às oito da noite. - Ela respondeu, dando um leve sorriso enquanto ainda procurava os cigarros. - Achei!
Ela pegou as duas carteiras de cigarro e colocou ao lado dos refrigerantes. Não havia o leitor de códigos-de-barra, então ela digitou preço à preço na máquina registradora.
- São R$13,20.
- Pode deixar que eu pago. - Disse Bruno olhando pra Lucas, enquanto enfiava a mão no bolso direito da calça. De lá ele tirou uma nota de R$20.
Depois de pegar o troco, Bruno empacotou os refrigerantes, pegou uma carteira de cigarros e enfiou no bolso junto ao dinheiro. A outra carteira estava nas mãos de Lucas, que a abria apressado.
- Eu estava louco pra fumar. - Ele disse tirando os dois primeiros cigarros que conseguiu alcançar ao tirar o papel brilhante que os envolvia. Deu um a Bruno e colocou o outro na boca. Tirou um isqueiro vermelho do bolso e o acendeu. Depois o entregou a Bruno, que fez o mesmo.
Uns três passos depois, Lucas olhou para a entrada e viu o carro de sua mãe ali parado. Os meninos colocando suas malas dentro dele. Tanto ele quanto Bruno não se conteram, e começaram a correr em direção a eles.

III

Depois de colocar suas malas no banco de trás do carro, Piccoli viu o traçado ao longe de duas pessoas vindo correndo na direção deles. Não demorou para distinguir Lucas e Bruno. Eles chegaram rápido e apressaram-se a colocar suas coisas dentro do carro, Bruno ainda arrumou um espaço para colocar os refrigerante que acabara de comprar.
- O que houve, Lucas? - Perguntou Piccoli depois de notar algo estranho e pensativo na expressão do amigo.
- Nada, amor. - Lucas respondeu ofegante, dando uma longa tragada em seu cigarro logo depois.
- Me dá um cigarro? - Pediu Piccoli, olhando para Lucas, que pareceu não prestar atenção.
- Toma. - Disse Bruno mostrando um cigarro para Piccoli.
- Valeu, amor.
Piccoli prontamente tirou seu isqueiro laranja do bolso de sua calça e acendeu o cigarro, dando uma primeira longa tragada e soltando rapidamente a fumaça. Olhou ao redor e viu que Pierrot já estava novamente sentado no paralelepipedo, esperando eles se resolverem para seguirem para o condomínio. As malas já estavam todas arrumadas no carro, e Lucas apenas conversava algo com seu padrasto antes do carro ter sido novamente ligado. Piccoli sabia que havia algo de diferente em Lucas, mas não se sentia preparado a ir em frente com essa questão. Iria apenas deixar de lado, como sempre fazia. A verdade é que ele se sentia deixado de lado pelos outros, como se sua opinião nunca fosse considerada. Os outros o consideravam bobo, sabia. Não, bobo não, burro. Eles acham que eu sou burro, pensou. Mas ele sabia que era apenas subestimado.
O carro deu a volta e finalmente se foi, desaparecendo rapidamente na curva próxima do mercadinho.
- Vamos, gente. - Disse Lucas mais para Pierrot, que ainda estava sentado, do que os outros.
Piccoli ficou esperando Pierrot se levantar e foi andando ao seu lado, logo atrás de Lucas e Bruno, e ligeiramente a frente de Miguel e Belki.
- Piccoli? - Chamou Miguel, fazendo-o olhar para trás, enquanto ele fazia sinal de que queria dar uma tragada em seu cigarro.
Ele então deu o cigarro para Miguel, que parecia bem satisfeito ao devolvê-lo.
Antes de chegarem a curva na estrada, Piccoli sentiu seu celular vibrando, e já sabia do que se tratava, mas fingiu-se surpreso ao tirar o celular do bolso e ver que havia recebido uma mensagem de seu namorado, Thiago, o qual apelidara carinhosamente de 'presuntinho'. Seus amigos sempre brincavam com a quantidade de mensagens que Piccoli e Thiago trocavam. Faziam piadas do tipo "deixa teu namorado em paz um pouquinho", e etc. Ele até lembrou do que Pierrot disse a ele no dia anterior, ainda na casa da mãe de Lucas: "Thiago devia dar graças a Deus que tu vai sair do pé dele durante uma semana." Piccoli até riu do comentário, sabia que era brincadeira. Ele também sabia que não era um "chiclete" como seus amigos diziam. Se ele mandava muitas mensagens para Thiago, era porque esse mandava ainda mais para ele.
"Não sei como vou aguentar ficar uma semana sem te ver. Se cuida, te ligo hoje a noite." dizia a mensagem. Piccoli deu um leve sorriso. Olhou para hora, já eram 17h, faltava pouco para a noite cair e ele receber a ligação de seu amado. Mal podia esperar. Não se aguentou e mostrou a mensagem para Pierrot.
- Ele não aprende. - Pierrot disse depois de ler a mensagem, com seu comum tom de gozação.
Piccoli continuou sorrindo, enquanto guardava o celular. Olhou para frente e notou que Lucas e Bruno conversavam aos cochichos, sabia que eles deveriam estar falando sobre o que havia feito Lucas de alguma forma mudar de expressão quando voltou do mercado. Mesmo sabendo que era errado de sua parte, Piccoli tentou ao máximo ouvir sobre o que conversavam, mas não conseguiu.
- Falta muito, Lucas? - perguntou, interrompendo a conversa a frente.
- Não, amor. É daqui a umas 4 entradas. - apressou-se na resposta, voltando ainda mais apressadamente aos cochichos com Bruno.
Piccoli já se sentia incomodado. Sua curiosidade estava o consumindo. Queria saber do que tratavam os dois amigos a sua frente. Na verdade, queria apenas saber se era sobre algo estranho que pudesse ter acontecido. Estranho ou engraçado, não fazia idéia. Olhou mais a frente para ver se sua vista alcançaria a quarta entrada. As calçadas eram bem arborizadas, logo ele não obteve sucesso em sua tentativa de saber quanto tempo levaria para chegar no condomínio.
O grupo passou pela primeira entrada, se tratava de uma rua sem calçamento, toda de barro, com uma ligeira ladeira. Piccoli já ficou mais tranquilo ao ver que não seria uma ladeira difícil de subir e a ladeira que subiriam era provavelmente igual aquela. Ele até notou Miguel dando um suspiro de satisfação, logo atrás dele. Não demorou muito para passarem pela segunda entrada, praticamente igual a primeira. Realmente não demorariam a chegar na quarta entrada.
Olhando para trás, Piccoli ficou surpreso ao notar a pouca disposição que Miguel e Belki demonstravam. Pierrot também não estava parecendo muito bem, pelo que ele percebeu. Já a sua frente Bruno e Lucas pareciam tão bem quanto ele. E o pior é que ele se lembrava muito bem como tinha sido a pessoa que dormiu menos na noite anterior a viagem. Como os meninos haviam brincado com ele e feito piadas a respeito de seu relacionamento com Thiago. Como nenhum deles queriam deixar ele dormir, e principalmente como ele acordou às seis da manhã, no intuito de já deixar a casa arrumada para quando todos os outros acordassem, já pudessem viajar sem se importar com esse tipo de detalhe. Ele realmente estava ansioso para viajar. Ficava ansioso com muita facilidade, admitia.
Ao passar pela terceira entrada, todos levaram um susto, exceto Lucas. A ladeira daquela entrada era muito diferente das que haviam ficado para trás. Era bem mais alta e muito mais íngrime. Da fato, seria impossível subir aquilo com malas, Piccoli reparou. Já imaginava que a quarta seria terrível, se a proporção continuasse a crescer.
Poucos minutos depois já se encontravam de frente à ladeira da quarta entrada. Infelizmente era ainda maior que a anterior, mas felizmente tão íngrime quanto ela. Todos se olharam com vontade de rir e ao mesmo tempo chorar, fazendo drama. Piccoli gostava de drama às vezes, e sabia que todos seus amigos também, mas só fez começar a subir. Foi o primeiro, seguido por Lucas. O restante deles vieram logo atrás.
Antes de chegar na metade da ladeira, Piccoli teve a estranha sensação de uma gota de suor esconrrendo pelo seu pescoço. Só agora reparou como não fazia mais tanto calor e que a luz do sol já vinha fraca, com ele pronto para se pôr. Deviam ter andado por uns 15 ou 20 minutos, imaginou. Lucas passou à dianteira do grupo e chegou no topo com pouco tempo, mas muito esforço, e lá ficou esperando pelos outros.
Quando todos estavam juntos novamente, Lucas voltou a andar, dessa vez para sua esquerda, parando rapidamente depois de poucos passos.
- É aqui. - Disse ele apontando para um pequeno portão azul, logo abaixo em sua esquerda.
- Aleluia! - Exclamou Miguel.
Todos entraram bem cansados, enquanto Lucas segurava educadamente o portão. Piccoli foi o último a passar, fixando seu olhar no rosto de Lucas. Ele ainda estava diferente, Piccoli só não sabia o motivo.

IV

A primeira coisa que Pierrot fez ao chegar na casa número 11 do condomínio, foi sentar na cadeira que estava mais próxima da entrada da varanda. Ele foi o primeiro a chegar ali, seguido por Bruno que o encarava com um olhar de repreendimento. Parecia que ele queria dizer com os olhos que aquele não era o momento de sentar, mas sim de pegar as malas que ainda estavam no carro e levar para o quarto em que ficariam. Que se foda, pensou. Ele desviou o olhar de Bruno para os outros que vinham entrando juntos.
Miguel ja chegou se jogando no chão da varanda, ofegante, pingando de suor. De todos, ele com certeza parecia ser o mais cansado. Belki não ficava muito para trás. Sua camiseta estava completamente encharcada de suor, bem mais que a de Miguel, porém ele não parecesse nem um pouco exausto. Piccoli já chegou tirando o celular do bolso, provavelmente para novamente ver a hora. Ele pareceu frustrado ao colocá-lo de volta. Lucas parou em frente a varanda, olhando para um dos outros cinco de cada vez. Pierrot, por sua vez, olhou de volta ao perceber que todos os outros faziam o mesmo.
- Minha mãe deve estar lá em cima. - Disse Lucas olhando para o primeiro andar. - Eu vou chamar ela pra cumprimentar vocês e pegar a chave do carro. É rápido.
Ao terminar de falar, ele apressou-se para dentro da casa, enquanto Pierrot se levantava. Ele não queria causar uma má impressão a mãe de Lucas, que estava generosamente recebendo-os para o final de semana e deixaria a casa em suas mãos durante a semana, quando ela voltaria para sua casa. Ele desceu os únicos dois degraus que separavam a varanda do pequeno quintal. Ele analisou a casa por fora, coisa que não tinha feito ao chegar, na sua pressa de sentar.
A casa era toda pintada de marrom por fora, era estreita, tinha um janelão de madeira no primeiro andar, e no térreo uma janela pequena de madeira ao lado da porta, também de madeira. Os suportes do telhado da varanda também eram de madeira. Pierrot achou incrível o fato de tudo naquela casa ser de madeira, exceto as paredes e pelo menos o piso da varanda e da sala que era até onde sua visão podia alcançar. Deve ser por causa da maresia, pensou, ela deve corroer outros tipos de materiais ou sei lá. As janelas e a porta não eram protegidas por grades, como a maioria das casas do condomínio, mas apenas por possivelmente frágeis fechaduras. Pierrot não quis pensar no perigo que isso significava, para ele aquele lugar era deserto e tranquilo demais para que qualquer coisa fora do comum pudesse acontecer.
- Oi, meninos! - Disse a mãe de Lucas ao chegar na porta, fazendo com que Pierrot voltasse sua atenção para ela.
- Gente, essa é minha mãe. Podem chamar ela de tia Carla. - Apresentou Lucas, rindo.
- Que conversa... - Ela disse olhando para seu filho com olhar de negação. - Me chamem só de Carla, meninos.
Todos riram. Nada forçado, apenas uma leve e rápida risada. Nenhum dos cinco parecia saber o que falar, ou ao menos se arriscar a falar primeiro. Quando Pierrot ia abrir a boca para ser o primeiro, Carla apontou para Piccoli.
- Piccoli eu já conheço.- Ela afirmou sorrindo.
- Oi! Tudo bom, tia? - Ele falou indo em direção a ela e beijando suas bochechas. Ela usou uma expressão de contrariada ao ouvir a palavra tia, mas não reclamou.
- Tudo, querido.
- Esses são Miguel, Belki, Bruno e Pierrot. - Apresentou Lucas apontando para cada no momento em que dizia seus nomes. Quando cada nome era mencionado, eles respondiam com um "oi" sorridente. Ela repondia da mesma forma, adicionando um pequeno aceno.
- Se sintam em casa, certo, meninos? - Ela disse sempre sorridente. - Eu fiz uns hot dogs para vocês comerem porque achei que chegariam morrendo de fome, então podem ir na cozinha e se servirem. - Ela agora parecia um pouco mais séria e apontou para o fundo da casa, onde ficava a cozinha. - Qualquer coisa eu vou estar lá em cima.
Depois que ela saiu, Lucas mostrou aos outros que tinha a chave do carro em mãos, e seguiu na direção dele. Pierrot mal percebeu, estava ocupado pensando em como Carla parecia ser bem mais nova do que deveria ser. Ela devia ter mais de 40 anos, mas parecia ter uns 32 no máximo. Ela morena clara, tinha no máximo 1m60 de altura e tinha longos cabelos presos que estavam presos naqueles poucos minutos que ela passou ali embaixo. Quando Pierrot voltou-se a pensar em suas malas, ele já estava sozinho no quintal, enquanto os outros tiravam suas malas do carro na garagem. Ao se virar para ir lá também, ele foi surpreendido por um "psiu!" que vinha do janelão do primeiro andar. Se tratavam de duas garotas. Duas morenas, uma tão clara quanto Carla, outra um pouco mais escura. As duas pareciam ter a mesma idade, no máximo 15 anos. A morena mais clara tinha longos cabelos loiros, a outra tinha cabelos pretos.
- Oi? - Foi sua resposta ao "psiu!".
- Cadê os outros dois? - Perguntou a loira com a voz um pouco baixa, dando a entender que não queria que os outros ouvissem.
- Ahn? - Não que ele não houvesse entendido, mas ele estava desconcentrado na pequena conversa.
- Lucas disse que era um grupo de oito amigos. - Ela explicou. - Só vi seis.
- Ah, sim. - Agora ele juntou as coisas. Dois de seus amigos não tinham chegado com eles. Vinícius, namorado de Miguel, estaria trabalhando naquela tarde e só poderia chegar no sábado. Já Ítalo, melhor amigo de Vinícius, iria fazê-lo compania na viagem. - Os outros só chegam amanhã.
As meninas pareceram satisfeitas com a resposta e sairam da janela sem falar mais nada. Pierrot achou estranho, mas deu de ombros e seguiu pra garagem. Todos já tinham tirado suas coisas de lá e pareceram parar de conversar só pra olhar enquanto Pierrot, no caso 'o atrasado', tirava suas malas.
- Vocês não vão entrar? - Ele perguntou enquanto tirava a primeira mala com dificuldade do banco de trás do carro.
- Eu tenho que fechar o carro. - Respondeu Lucas.
Os outros quatro pareceram entender o "estão olhando o quê?" indireto de Pierrot e sairam devagar em direção a casa. Enquanto isso, ele tirou sua outra mala e seguiu o mesmo rumo. Lucas fechou o carro, acionou o alarme e o seguiu.

V

Belki ficou na varanda da casa, assim como os outros, esperando que Lucas entrasse primeiro. Parecia um concenso sem uso de palavras, pois seria estranho qualquer um que não fosse ele entrar primeiro. Lucas chegou logo depois de Pierrot e olhou para todos com uma expressão de reprovação em seu rosto.
- Entrem. - Ele disse, quase que num tom de reclamação, e fez seu caminho para dentro.
Belki olhou para Bruno, que pareceu não gostar da reação de Lucas ao ver que eles não tinham entrado. Ele foi o primeiro a segui-lo, Belki logo atrás. Piccoli, Miguel e Pierrot os seguiram.
A escada era diferente da de uma casa comum, era circular e não tinha corrimões. Por um instante, Belki ficou pensando que alguém poderia se acidentar ali se descesse muito rápido, sem prestar atenção. Ao chegar no primeiro andar, havia um corredor. Lucas e Bruno já se encontravam no final do corredor, onde haviam duas portas, uma a direita e outra a esquerda. Lucas abriu a porta a esquerda e entrou rapidamente, Bruno o seguiu. Ao chegar a porta, Belki notou que haviam duas meninas dentro do quarto. Ficou com vergonha de entrar, mas logo os outros já quase o empurravam para dentro, então ele andou timidamente até o canto do quarto, onde colocou suas malas.
As duas meninas olhavam todos eles, de rosto em rosto, parecendo avaliá-los.
- Gente, essas são Carol e Priscila. Carol é minha irmã, - Lucas apresentou apontando para a loira, logo depois apontou para a morena. - e Priscila minha prima.
- Oi. - Elas disseram em sicrônia, dando um meio sorriso.
As duas eram diferentes, mas agiam da mesma forma, Belki notou. As duas usavam shorts e camiseta, nada mais normal para o clima quente de praia, mas ele imaginou que elas deveriam se vestir assim sempre.
- Esses são Bruno, Belki, Miguel e Pierrot. - Lucas prosseguiu apontando para cada um. - E Piccoli vocês já conhecem.
Agora foi a vez deles soltarem seus "ois" com um meio sorriso.
- Bom, a gente vai ter que dormir aqui por enquanto porque minha família só vai embora no domingo. - Lucas disse. - A partir de domingo a gente se divide e alguns dormem no outro quarto para não ficar muito apertado.
Todos aquiesceram sincronizadamente.
- Eu vou tomar um banho, gente. - Lucas disse, enquanto mexia em uma de suas malas, provavelmente a procura de uma toalha. - Porque vocês não vão jogar vôlei enquanto isso? Tem uma bola lá embaixo.
- É uma boa idéia. - Bruno afirmou, parecendo mais animado e olhando para os outros. - Vamos?
- Eu vou. - Piccoli afirmou também animado.
- Eu não tô muito afim. - Belki disse, fazendo o possível para que eles não percebessem o quanto ele estava cansado.
- Miguel?! - Bruno chamou, claramente evitando contato com Pierrot.
Miguel olhou para Pierrot com uma expressão de dúvida: - Bora?!
- Vamos. - Pierrot concordou, olhando de Miguel para Bruno. - Eu e Miguel contra tu e Piccoli.
- Beleza. - Bruno concordou indo em direção a porta. - Onde que a bola está?
- Deve estar no quintal ou no beco. - Lucas respondeu, já com a toalha sua toalha no ombro, olhando para as meninas.
- Está no beco. - Carol afirmou.
- Valeu. - Bruno disse saindo.
Miguel, Pierrot e Piccoli o seguiram.
Belki ficou olhando para Lucas, enquanto ele andava em direção a porta para seguir ao banheiro.
- Fica aqui conversando com as meninas. - Lucas disse saindo. - Eu já volto.
- Ok.
Belki fez o possível para não revelar sua timidez, mas ele sabia que era óbvio para as meninas que ele não parecia muito confortável ali. Ele sentou no chão, afinal não havia nada no quarto a não ser um colchões encostados a parede e uma pequena estante cheia de produtos de beleza ao lado de um espelo, onde as meninas disputavam para se olhar enquanto se maquiavam.
- Vocês vão sair? - Perguntou Belki procurando puxar assunto.
- Anham. - Uma das duas afirmou, mas ele ficou confuso na hora de saber qual delas. Carol então olhou para ele. - A gente vai sair com dois caras que a gente conheceu ontem na praia.
- Legal. - Ele disse olhando para o céu pela janela, logo em seguida voltando o olhar para Carol. - Aqui deve ter poucos lugares para sair a noite, né?
- Humph... Não tem nenhum. - Priscila soltou parecendo não gostar nenhum pouco daquele lugar. - A gente só vai a uma sorveteria.
Belki não sabia mais como continuar o assunto, então por um minuto ficou calado. As meninas ficavam se entre-olhando, depois cochichavam algumas coisas e riam. Ele se sentiu ainda mais tímido com aquela atitude, ficava se perguntando se elas estavam rindo dele, até que Priscila voltou a puxar assunto.
- Vocês são todos gays mesmo?
- Er... - Belki ficou sem palavras por um instante, mas ainda tinha medo de demonstrar sua timidez e soltou rápido: - Somos sim.
- E são todos solteiros?
- Miguel e Piccoli têm namorados. Vinícius, o namorado de Miguel, até vem pra cá também. Chega amanhã. - Dessa vez ele sentiu orgulho de se mesmo por ter falado calma e pausadamente.
- Uhmm... E nenhum de vocês é bissexual?
- Ela quer saber se Pierrot curte meninas também. - Carol atrapalhou, falando rápido, como se tivesse medo de ser interrompida.
Priscila pareceu não gostar nem um pouco e pulou em cima da prima, colocando a mão em sua boca.
- Sua nojenta! - Priscila disse, quase que gritando. Logo se virou pra Belki: - É mentira dela.
Belki achou a cena engraçada, e se segurava para não rir. Já se sentia melhor, não achava mais tão estranho estar ali. Elas são legais, ele pensou, gostei delas. Do chão, Carol, esforçou-se para aquiescer, então Priscila a soltou. Mas pelo olhar de Carol, Belki sabia que era verdade.
- Pierrot é bi sim. Ano passado ele quase namorou uma amiga da gente. - Ele respondeu, olhando diretamente para Priscila, fazendo com que ela olhasse com raiva para a prima.
- Como ela é? - Carol perguntou em tom de deboche.
- Ela é morena, bem bonita, baixinha...
- Eita, Priscila, talvez você tenha uma chance. - Carol brincou, fazendo com que Priscila pulasse em cima dela de novo. - Parei, parei!
- Mas... - Belki interrompeu. - Pierrot está ficando com Bruno.
Priscila largou Carol e não conteve a expressão de descontentamento. Mas não demorou muito para que ela sorrisse.
- Era mentira dela. - Ela disse.
A conversa praticamente se concluiu aí, quando eles ouviram uma gritaria vinda lá de fora. Os meninos pareciam estar discutindo na quadra de vôlei, que era praticamente de frente a casa, atrás do estacionamento. Belki parecia ouvir apenas as vozes de Pierrot e Bruno, e a coisa parecia feia, mas ele sabia que devia ser bobagem.

VI

- Esse caralho foi linha! - Pierrot gritava com expressão de deboche.
Bruno sabia que toda aquela briga não era pelo jogo, era para provocá-lo. Desde o dia anterior que Pierrot não parava de pisar no pé dele, parecia que isso o estava fazendo feliz. Parecia que provocar Bruno era um tipo estranho de diversão para ele.
Bruno deu um longo suspiro e olhou em volta, já estava cansado de gritar. Reparou que alguns dos condôminos estavam pasmos com a briga e não conseguiam tirar os olhos de Pierrot. Miguel havia ficado claramente sem reação. Bruno sabia que ele queria interferir na briga, mas não tinha coragem. Já Piccoli parecia nem perceber que eles estavam brigando, continuava com a cabeça na lua, provavelmente pensando em seu namorado.
- Que foi? Vai admitir que foi linha ou não? - Pierrot continou provocando.
Foi o suficiente. Bruno jogou a bola na quadra, e caminhou calmamente em direção a saída.
- Cansei de jogar com você. - Ele sabia que jogar não era bem a palavra que devia usar.
Ele estava triste, mas queria que pensassem que estava zangado. Olhou para Pierrot quando ouviu que ele havia murmurado algo para Miguel, depois não olhou para mais nada que não fosse a entrada da casa. Ele entrou, subiu as escadas com pressa, entrou no quarto e seguiu direto pra sua bolsa, sem falar uma palavra. Foi fácil perceber como Belki e as meninas se espantaram com sua atitude, mas ele não se importava, só queria achar sua toalha.
- O que houve lá embaixo? - Belki quebrou o silêncio.
- Pierrot. - Saiu rápido e sem expressão.
Ele desceu as escadas na mesma velocidade que tinha subido. Olhou pela janela ao lado da porta para ver se os meninos ainda estavam na quadra. Para sua surpresa, eles estavam conversando com um homem. Eles pareciam intrigados com o que o homem falava. Até Piccoli parecia prestar toda a sua atenção.
O homem estava de costas para Bruno, então ele não fazia idéia se já havia visto ele antes ou não. Ficou olhando fixamente para os quatro que ali conversavam, pela beirada da janela, como se temesse que eles notassem que ele estava bisbilhotando. De repente, algo o assustou.
- Já está escuro! - Lucas disse chegando por trás de Bruno para alcançar a janela. - Tinha perdido a noção da hora.
Só então Bruno reparou que realmente a noite já havia caido. Deviam ser entre 18h e 18h30 no máximo. Nesses dias de verão o sol demorava muito a se pôr e era muito fácil perder a noção do tempo, mas Bruno não comentou nada.
- Você vai tomar banho agora? - Lucas perguntou, obviamente por ter reparado a toalha em seu ombro.
- Ahh, vou sim. - Respondeu prontamente. - Só estava vendo uma coisa.
- Oush, - Lucas soltou parecendo intrigado. - o que é que os meninos estão falando com o caseiro?
- Nem sei, Lucas. Vou pro banho. - Bruno respondeu, fingindo que não tinha nenhum interesse sobre aquela conversa e seguindo em direção ao banheiro, que ficava logo depois da escada.
***
Ao sair do banheiro, Bruno se deparou com a mãe de Lucas. Ela estava preparando algo no fogão. Ela se virou e olhou para ele sorrindo.
- Estou preparando uns hot dogs pra vocês. - Ela disse.
Ele aquiesceu e subiu as escadas.
Durante seu banho, deveriam ter passado pelo menos 30 minutos, ele sabia. Tinha pensando em tantas coisas, que novamente houvera perdido a noção do tempo. Na maior parte do tempo se perguntou o que havia acontecido para que Pierrot de repente mudasse tanto na forma de tratá-lo.
Ao entrar no quarto se deparou com todos os meninos, sentados no chão. Pareciam terem se calado de repente quando ele chegou.
- O que houve? - Ele perguntou indiferente. - Estavam falando de mim?
- Claro que não. - Lucas afirmou, como se fosse óbvio. - Só estávamos combinando o que vamos fazer amanhã.
- E o que vamos fazer? - Bruno perguntou, ainda indiferente.
- A gente vai dormir cedo hoje pra amanhã irmos para a piscina, enquanto Miguel e Pierrot vão buscar Vinícius e Ítalo lá na entrada de Enseada. Depois a gente pode jogar vôlei...
- Vôlei não. - Bruno interrompeu, dando uma olhada rápida em Pierrot.
- Enfim... - Lucas continuou. - A gente faz alguma coisa aqui a tarde e a noite vamos a praia.
- Eu vou me bronzear amanhã. - Piccoli disse.
- Boa! - Bruno finalmente pareceu se animar. - Eu vou com você!
- Não sei vocês, mas eu vou tomar um banho. - Pierrot disse se levantando com sua toalha já em mãos. - Eu estava esperando faz tempo.
Bruno entendeu a indireta. Não gostou nem um pouco, mas não estava afim de comprar mais uma briga naquele momento. Depois que Pierrot saiu, ele sentou fazendo compania aos outros. Olhou ao redor e notou algo diferente no quarto, logo percebeu.
- Cadê as meninas?
- Foram se arrumar pra sair. - Belki respondeu.
- Elas estão no outro quarto. - Lucas complementou.
Todos permaneceram calados por uns instantes, pareciam estar sem assunto. Não demorou e um celular começou a tocar. Piccoli se levantou rápido.
- É Thiago! - Afirmou feliz, indo em direção a porta. - Vou falar com ele lá fora... Amor?
Bruno achava muito bobo o jeito que Piccoli esperava tão ansioso para falar com seu namorado, mas ainda assim um pouco bonito. Pensou nisso por alguns instantes e logo depois se lembrou do que havia visto antes de entrar no banheiro. Prontamente se virou para Miguel, que parecia estar longe dali, pensando.
- Miguel?!
- Er... oi! - Miguel respondeu perdendo a concentração.
- O que vocês estavam conversando com o caseiro antes de entrarem?
Lucas e Belki agora também pareciam interessados e se viraram para olhar Miguel.
- Nada demais. - Miguel respondeu, parecendo se esforçar para lembrar. - Ele só perguntou até quando a gente ia ficar, explicou que a maioria dos condôminos daqui só ficam pelo final de semana, mandou a gente ter cuidado...
- Cuidado com o quê? - Bruno interrompeu.
- Ele falou que as ondas do mar aqui são muito fortes, também disse pra ficarmos afastados das matas, sei lá...
Todos ficaram calados. Bruno sabia que estavam todos pensando no motivo pelo qual o caseiro diria pra ficarem longe das matas. Havia muitas matas por aquela região. Bem mais matas do que casas, seria difícil se manter afastado delas. Então ele imaginou que Miguel estava distante antes pensando nisso, ou pensando em seu namorado. Mas Miguel não era como Piccoli, então provavelmente estava pensando no que o caseiro havia lhe aconselhado a não fazer. Bruno não conseguia afastar a vontade de entrar numa mata de seus pensamentos, queria se aventurar. Mas sabia que ninguém iria concordar. E a pessoa que provavelmente gostaria da aventura, seria logo aquela que mais fazia questão de discordar dele. Pierrot.
O resto da noite passou bem devagar para Bruno. Miguel, Piccoli e Belki fizeram suas vezes de tomar banho, depois todos foram comer os hot dogs que a mãe de Lucas havia preparado. As meninas sairam quando todos conversavam na varanda, por volta de umas 20h30. O maior assunto da noite foi provavelmente o namoro de Piccoli, como sempre. Todos adoravam fazer brincadeiras a respeito dele, era engraçado ver Piccoli irritado. Antes mesmo de das 22h, estavam todos no quarto, já deitados, ainda conversando, fazendo planos para o sábado. A lua estava bonita, e Bruno e Miguel haviam discutido durante um tempinho sobre a fase dela. Pierrot deitou no canto direito do quarto, ao lado de Bruno. Logo depois vinham Miguel, Piccoli, Lucas e Belki, no outro canto do quarto. Todos deitados em vários colchões que formavam praticamente um só. Belki foi o primeiro a cair no sono, roncando um pouco. Isso fez com que todos rissem, mas foi uma graça que passou rápido. Logo, Lucas já estava dormindo também. E depois Piccoli e Miguel, sendo que restaram acordados apenas Bruno e Pierrot.
Pierrot ainda mexia em seu celular, provavelmente esperando o sono chegar. Bruno estava se segurando para não falar nada. Ele não queria discutir de novo, e sabia que pra conversar sem discutir ele teria que pedir desculpas por algo que ele nem lembrava mais o que era, e ele também não queria fazer isso. Ele se deitou de lado, dando as costas a Pierrot, e ficou ali esperando. Esperou pelo menos uns 20 minutos, até que finalmente caiu no sono.

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